
Fragma-Memory

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Interligados Sound System junta oito MacBooks em um palco para uma jam session
Não é todo dia que se pode dizer ter visto aparecer um novo gênero musical. Pois é, mas eu vi. O show do Interligados Sound System não foi o primeiro a juntar DJs de laptop em um palco, mas foi uma das experiências mais abrangentes, inovadoras, bem-sucedidas e divertidas de que se tem notícia. Nove DJs (ou melhor, produtores de música eletrônica, o termo certo para diferenciar caras que fazem e tocam suas próprias composições dos manos que fazem scratch em vinil e mixam músicas dos outros em shows e festas) improvisando juntos e sincronizados. Electronic Jam Session? Instant Remix? Big Borg Band? Ainda não se sabe o nome, mas a música é diferente de tudo o que você já ouviu, unindo a precisão da eletrônica, a estrutura da música erudita moderna e a improvisação do jazz. Tudo unido à graça e ao balanço da música eletrônica brasileira. Mas vamos voltar um pouco no tempo para contar a história do começo.
Agosto de 2005. Em um evento irado em Belo Horizonte promovido pela revenda autorizada Apple Tecmania, misturando palestras sobre Mac e pista de dança com DJs e VJs no mesmo lugar, assisto a uma das primeiras apresentações do Jamanta Crew, coletivo de dois formado pelos produtores Dudu Marote e Rafael Droors. Eles se apresentam com seus respectivos Macs rodando o Ableton Live em sync, fazendo um som que, apesar de ter como base loops pré-programados, permite uma liberdade de improvisação bem grande. “Como está tudo sincronizado, podemos jogar elementos em cima da música, esticar, engrossar ou suavizar de acordo com o clima da pista”, diz Dudu. Depois da função, em um papo animado e bem regado, surge a idéia: e se em vez de dois DJs vocês ligassem uma meia dúzia em sync para uma jam session? Estava inaugurado o projeto LAN House de DJs. Dois anos e alguns meses depois, Dudu aparece no iChat e diz: vai rolar. O line up era um mix bem heterodoxo de produtores brasileiros de música eletrônica: além de Dudu (AKA Prztz) e Rafael, contava com as participações de Gui Boratto, XRS, Nego Moçambique, Zegon, Bungle, Dada Attack e DJ Nuts. Batizado de Interligados Sound System, o evento iria abrir o festival Motomix. Como todos são caras muito requisitados, só deu para rolar um ensaio, dois dias antes do show. A idéia era fazer um som relax, próprio para um show de abertura em uma tarde de domingo, com batidas entre 74 e 100 rpm, nada de puts-puts. Todos os Macs foram ligados em rede, sendo que um deles foi designado como o “maestro”, armazenando as músicas-base e ficando ao lado da mesa de som. Cada DJ se alternaria como o regente (ou guarda de trânsito), controlando o Mac principal, tocando e pausando o som de todos os Macs conectados e abrindo ou fechando o canal de cada um dos músicos participantes. Felizmente, ao contrário de outros tipos de artistas e músicos, DJs são caras humildes sem grandes egotrips e tudo rolou na boa, quase sem discussão.
A comparação com uma orquestra ou banda de jazz é válida até certo ponto. O Interligados é uma orquestra na qual todos tocam todos os instrumentos o tempo todo. A base são músicas “peladas”, com alguns tracks desligados para dar espaço para os outros. Como ninguém ali é novo na profissão, o diálogo se estabelece rapidamente, e novas camadas de ritmos, solos, texturas e intervenções vão sendo acrescentada. “É um caos organizado”, diz Gui Boratto. Nos dois anos que separaram a idéia da realização, muita gente já se apresentou com laptops ligados no palco. No Brasil, recentemente, rolaram as apresentações da Orquestra de Laptops, regida pelo músico Wilson Sukorski, e do Projeto Axial, no Tim Festival. A principal diferença do Interligados Sound System foi reunir nove dos melhores DJs e produtores do país e o conhecimento profundo que Dudu tem do Ableton Live. “Para mim, é o programa essencial para fazer essa empreitada toda”. “Tecnicamente, não tem segredo”, diz ele. “Basta juntar alguns neguinhos com MacBooks. O sincronismo é realizado pelo Tiger, pelo painel Audio MIDI Setup. É só iniciar uma sessão, conectar e abrir um programa que use bem o sincronismo, como o Ableton Live”.
O ensaio
Se tecnologicamente não há qualquer segredo, fazer a coisa soar bem é outra história. Tive o privilégio de assistir ao ensaio do negócio. No começo, o “maestro” Dudu tinha deixado os canais mais fechados para controlar melhor o que saía de cada máquina. O fato de não se saber ao certo quem estava mandando o quê dava uma certa sensação de insegurança. Mas logo essa estratégia foi abandonada pelo vale-tudo anarco-sindicalista, com todos os canais abertos, cada um responsável pelo som de todos. Tudo saiu bonito, ninguém ultrapassou o sinal, tudo muito cordial e harmônico. Até que chegou o DJ Nuts, com seu equipo vintage, que se recusou terminantemente a ser sincado com o grupo. “Não precisa. Diz qual é o BPM que eu entro”. Depois de uma pequena altercação com Dudu e um teste de habilidade no qual Nuts mostrou a que veio, o rebelde foi aceito na banda sem mais discussões. A demência (no bom sentido) de Nuts foi o componente que faltava para o bicho pegar. Todo mundo se soltou e o som começou a fluir, sem ninguém se importar muito com quem estava tocando o quê. Todos se divertiam muito ao ver suas músicas remixadas “on the fly” pelo time e ao final de cada música rolava uma sessão de perguntas (“Quem mandou aquele vocal? O que era aquilo? Quem tem o sample do Bomb the Bass?”) seguido de uma troca de arquivos pela rede ou pen drive. Ao final do ensaio estavam todos totalmente interligados, não só pela ethernet, mas psiquicamente também. O som saía encorpado, cheio de nuances, empolgante, e o tempo de estúdio foi ultrapassado em pelo menos meia hora. Infelizmente, ninguém apertou o botão REC.
O show
Domingo ameaçando chuva, 14h30 em ponto começa o som. O público é pequeno, mas vai aumentando gradativamente durante o show. Cada DJ tem direito a dez minutos no “Mac maestro” com seu set. Os outros acompanham e cada música é interrompida para a troca e apresentação do DJ condutor. Esse esquema prejudica um pouco a fluidez dos improvisos. Como no ensaio de sexta, a coisa engrena melhor para o final. O set de Gui Boratto, o último da playlist, é o melhor, com todo mundo tocando nervoso, mas sem perder a compostura. A experiência de juntar um bando de top DJs de laptop para uma jam funcionou tanto no palco como fora dele. A platéia curtiu, dançou e se embasbacou com o som do coletivo.
O futuro
As possibilidades que o esquema abre são muitas. Durante o ensaio, já rolaram idéias como colocar VJs para inserir em um telão imagens que mostrem para o público quem está tocando o quê. Interfaces mais alopradas que o Monome, usado no show por Gui Boratto, podem ser utilizadas para controlar os samples armazenados nos MacBooks, dando mais liberdade e versatilidade aos músicos. Já existem algumas baseadas em sensores de movimento e até uma experiência para usar iPhones como controllers. No final das contas, é um espetáculo que mostra, como nenhum outro, as duas coisas que são a razão de ser do Macintosh: criatividade e facilidade de uso. A Apple deveria fazer seu MacBook Festival e chamar os caras para uma sessão non stop de 48 horas de som e workshops.
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